Repense sua TI…talvez ela ainda seja analógica!

Cezar Taurion
6 min readMar 12, 2021

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Em 2003, Nicholas Carr publicou um artigo que foi muito debatido: “IT Doesn’t Matter”. Quem não leu na época, deve ler agora. A lição do artigo é clara: TI sendo usada de forma operacional, não traz vantagens estratégicas. Ou seja, atualizando para hoje, quase 20 anos depois, seria algo como implementar um ERP é apenas cumprir a obrigação de buscar eficiência, mas não agrega nenhum valor competitivo. Apenas diminui a perda de eficiência que, certamente, a empresa tem hoje. A empresa que ainda não fez movimento similar, tem algo muito errado em sua gestão. Se a organização enxerga TI como commodity, um “mal necessário”, que está distante do seu negócio principal, está correndo sério risco de sobrevivência.

Por quê? A razão é clara. O mundo digital já chegou, e nenhuma empresa ficará imune às suas transformações. As tecnologias digitais têm o potencial de transformar por completo empresas e setores de indústria. Portanto, definir e colocar em ação uma estratégia digital é essencial para a empresa se manter relevante ou sobreviver no século 21. Por “ser digital” entendemos aquelas empresas que aplicam tecnologias e aplicações que permitem automatizar ao máximo processos e operações, melhorar substancialmente as tomadas de decisões (mais baseadas em dados e menos em intuições), criam relacionamentos estreitos e individualizados com seus clientes, e saem da casca, inovando e reinventando seus próprios modelos de negócio.

Nossos sistemas de gestão ainda são os herdados das formas mais antigas de organização humana, como as Forças Armadas e a Igreja. Essas organizações foram planejadas com o propósito de comando e controle, em uma época que não havia internet e smartphones. São estruturas com muitas camadas hierárquicas, intensa burocracia e distante dos clientes. A liderança não foca nos clientes, mas na concorrência, com a mentalidade presa em obter crescimento incremental levemente maior que o PIB, conquistando fatias de mercado contra os mesmos competidores de sempre e imitando alguns dos melhores modelos aqui e ali. Claramente não são compatíveis com às demandas do mundo digital do século 21, acelerado pela pandemia.

O desafio é que, reinventar um modelo de negócios quando as coisas estão funcionando ou dentro de uma crise econômica, parece ser uma ideia alucinada. Mas em mundo de exponencialidades, globalizado, a inovação não espera por você. Lembram-se do tsunami que afetou a indústria de música? O Napster foi lançado em 1999 e em apenas cinco anos a evolução tecnológica fez com que as receitas das gravadoras caíssem à metade! O Uber chacoalhou a indústria de táxis, o Airbnb a de hospedagem, o Netflix a de TV a cabo, o WhatsApp a de receitas de telefonia móvel com SMS. E, incrível, estas inovações não surgiram pelas mãos das empresas que dominam o mercado. Não foram spin-offs de empresas do setor. Vieram de fora da indústria, e startups ou empresas de outros setores! Vale a pena ler o que considero um dos mais importantes livros sobre negócios, publicado em 1997, “The Innovator’s Dilemma: When New Technologies Cause Great Firms to Fail”. Se quiserem um bom resumo, tem um texto “Understanding the Innovator’s Dilemma” que sintetiza o contexto. As empresas que já estão no mercado, ou ignoram ou até inventam novas tecnologias, mas por elas canibalizarem sua “cash cow” não investem nelas e acabam sendo ultrapassados por novos entrantes, que não precisam se preocupar com o legado.

A transformação dos negócios impulsionada pela revolução digital é uma realidade que já bate às nossas portas. A visão estratégica correta aponta nitidamente que as empresas devem deslocar o máximo de seus budgets de TI para iniciativas de transformação dos negócios pelo pensamento e tecnologias digitais, e não para melhorarem o que tem hoje, pois muito provavelmente o que está sendo feito hoje pode perder totalmente sua importância em pouco anos. Não há nada mais inútil que fazer com eficiência algo que não deveria ser feito ou que não mais precisará ser feito muito em breve.

Um exemplo que considero dramático é a pouca utilização de algoritmos (regras matemáticas de processamento de informação) dentro das empresas. Mesmo terminologias que já estão caindo em desuso, como “Big Data”, ainda não tem seus conceitos plenamente dominados e vemos muitas aplicações bem incipientes. São raríssimas as empresas que mantém em seu quadro “data scientists” de verdade. Espantoso que todos os executivos já constataram que temos a cada dia mais sensores, apps, computação em nuvem, etc., tudo aumentando de forma exponencial o fluxo de informações digitalizadas. Mas, pouco é feito para explorar essa verdadeira mina de ouro que as empresas possuem, e simplesmente não garimpam. Poucas são as empresas brasileiras que usam estes dados para alimentar algoritmos para detectar padrões e fazer previsões.

Estratégia digital e uso de algoritmos não é apenas desafio para os CIOs. Os CEOs têm que assumir a postura de “entrar na briga” e inserir DNA digital nas suas empresas. Muitos ainda ignoram a tendência e permanecem na defensiva. Já perderam o jogo, só ainda não sabem disso. Outros sabem que o tempo para começar a transformação digital está se esgotando, que não é mais uma questão de escolha, mas não sabem por onde começar. Aqui quero lembrar que ser digital é se transformar em uma empresa de tecnologia ou pelo menos com forte viés de tecnologia. Sim, tecnologia passa a ser parte central do seu negócio, qualquer que seja ele. Mas isso não significa que sua empresa vai começar a vender software. A tecnologia tem que ficar escondida para que os seus clientes tenham experiências únicas. A tecnologia tem que se tornar natural no seu negócio e a interação deles com a sua empresa tem que ser a mais fluida e sem fricções possíveis.

Vamos tentar ajudar…ser digital não é apenas para startups. Todas as empresas serão digitais. A abordagem de gestão centenária pensada para comandar e controlar se tornou obsoleta. Todas as empresas tradicionais podem e devem se transformar em empresas digitais. Serem ágeis, elásticas, adaptáveis e anti-frágeis. É possível sim, se moldar ao novo jogo. Para isso, é necessário, antes de mais nada, mudar o seu paradigma ou modelo mental. Pensar digital significa pensar estrategicamente não apenas na sua empresa, mas no ecossistema como um todo. Criar uma plataforma digital que permita a sua empresa, clientes e parceiros desenvolverem continuamente soluções inovadoras. Nenhuma empresa conseguirá se inovar continuamente se ficar isolada do ecossistema. A estratégia digital tem que ter liderança. O CEO dá o tom, mas um executivo sênior, que pode ser o CIO, se ele tiver esse perfil (muitos hoje não tem…) pode assumir a liderança operacional deste processo por toda a organização. Erro crasso: criar uma função apelidada de CDO (Chief Digital Officer) e subordiná-lo ao CIO, em uma TI com viés operacional. TI não é sinônimo de transformação digital. Muitas TI precisam fazer sua própria transformação digital, pois ainda mantém pensamento analógico. Assim, colocar o processo de transformação nas mãos de uma TI de pensamento analógico não vai se chegar a lugar nenhum! A cultura digital deve ser disseminada pela organização. Criar ambientes propícios à colaboração, estimular ao máximo a digitalização de todos os processos e operações da empresa.

Um grande desafio é como equilibrar o modelo atual e o novo, digital. Não existe receita de bolo pronta. Cada empresa vai encontrar seu ritmo, mas não planeje um tempo muito longo para isso e nem espere a crise passar para começar a fazer as mudanças. Implementar mudanças muito lentas poderá ser fatal, principalmente se um concorrente de fora de seu setor ou uma startup surgir com um ritmo muito mais acelerado que o seu. As decisões não podem ser tomadas em ritmo glacial, mas rapidamente. Não em meses, mas em dias. Concentrar sua visão estratégica no curto prazo, como vemos em tempos de crise, nos leva a ignorar as ameaças competitivas que surgem inesperadamente, e como as tecnologias e outras inovações podem afetar nosso modelo de negócios. Sugiro a leitura do texto de Larry Finck, CEO da BlackRock, “Here is the letter the world’s largest investor, BlackRock CEO Larry Fink, just sent to CEOs everywhere”, onde ele critica a visão curto-prazista de muitas empresas e seus executivos. É uma leitura obrigatória para todos os CEOs. Um extrato emblemático: “While we’ve heard strong support from corporate leaders for taking such a long-term view, many companies continue to engage in practices that may undermine their ability to invest for the future.”.

Além disso, não esqueça que a transformação para uma empresa digital implica automaticamente em uma empresa ágil e com outra estrutura organizacional. A esclerosada estrutura hierárquica não vai suportar essa nova velocidade. A jornada de uma empresa em se transformar em digital não pode ser delegada ou terceirizada. Envolve todos os executivos e funcionários. O CEO deve investir pelo menos de uns 30% a 50% do seu tempo. O CIO mais que isso, ou então passe a bola para outro executivo, um verdadeiro CDO (Chief Digital Officer) que esteja ligado diretamente ao CEO, e com plenos poderes para liderar o processo. Boa jornada!

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