Transformação Digital: o tsunami já está chegando ao litoral…
Um tema bastante debatido em artigos e eventos é a chamada quarta revolução industrial e o fenômeno das empresas exponenciais. Para mim, isso tem sido muito interessante, pois venho recebendo muitos convites para debater o assunto com executivos, que, claro, questionam diversos aspectos. São debates instigantes e que permitem reforçar meus conceitos. Neste post vou colocar alguns destes questionamentos e debater com vocês.
Uma das questões principais são se realmente as organizações exponenciais (ExO — Exponential Organizations) existem mesmo, ou se não são apenas um fenômeno passageiro, um hype que vai desaparecer em pouco tempo. Os convido a ler e reler o livro “Exponential Organizations: Why new organizations are ten times better, faster, and cheaper than yours (and what to do about it) ” para um aprofundamento maior do assunto. É um livro de 2014, mas continua sendo bem atual. Na verdade, para muitas empresas ainda é futurismo!
Estes questionamentos são normais quando nos deparamos com uma quebra de paradigmas. Um paradigma é um modelo mental e durante décadas fomos doutrinados a pensar de determinada forma. Um olhar diverso, causa, no mínimo, desconforto. Uma pequena e engraçada animação disponível no Youtube (Como nascem os Paradigmas — Grupo dos Macacos) mostra claramente porque muitas vezes pensamos naturalmente em empresas baseadas no modelo hierárquico, fazemos projeções lineares (mesmo em um mundo de exponencialidades) e relutamos em adotar novas tecnologias. Simplesmente, nos acostumamos a estes modelos e não os questionamos.
Um olhar neutro sobre o contexto de negócios mostra nitidamente que as mudanças já estão acontecendo. A rápida e exponencial (r)evolução tecnológica está transformando indústrias e criando concorrências inesperadas. À medida que a Internet e a tecnologia se dissemina pela sociedade, elas mudam dramaticamente o contexto estratégico: altera a estrutura da competição, a maneira de fazer negócios e elimina fronteiras entre setores de indústria antes distintos. Desagrega cadeias de valor estabelecidas e cria outras, movidas por novos entrantes que jogam outro jogo. Estas escalam mais rapidamente e a menor custo que as empresas existentes, criando um cenário competitivo inteiramente desconhecido. Já começamos a ver sinais de mudanças radicais no conceito de emprego e provavelmente a criação de inúmeras novas profissões. Talvez daqui a 25 anos ninguém mais comemore 25 anos de atuação na mesma empresa. E muito provavelmente não permanecerá 25 anos na mesma profissão.
Vamos mostrar aqui uma comparação de como os cenários estão em transformação: se compararmos Detroit, cidade americana sede das principais indústrias automotivas americanas, e, portanto, emblemática da sociedade industrial, de 1990 com o Silicon Valley, em 2014, veremos diferenças significativas. Em 1990 as três maiores companhias automotivas tinham, combinadas, uma capitalização de mercado de 36 bilhões de US$, receitas de 250 bilhões de US$ e possuíam 1,2 milhão de funcionários. Em 2014, as três maiores empresas do Silicon Valley tinham um valor de mercado de 1,09 trilhão de US$ (consideravelmente maior!), geravam quase a mesma receita (247 bilhões de US$), mas tinham cerca de 10 vezes menos funcionários, em torno de 137.000. Mudança de paradigma. Para entender uma ExO, vale a pena ler o livro “How Google Works” de Eric Schmidt, também de 2014, que aborda diversos tópicos que desafiam os modelos usados na imensa maioria das empresas pré-Internet, como cultura, conquista de talentos, processo de tomada de decisões, lidar com inovação e disrupção, e assim por diante.
O fato é que vivemos um mundo de constantes disrupções. A IA, mobilidade e os apps, estão mudando nossos hábitos. São eles que permitem transformar o smartphone em qualquer objeto ou ferramenta que simplifica o nosso dia a dia. Com apps podemos identificar restaurantes e lojas, pesquisar preços para tomar melhores decisões de compra, nos conectarmos às mídias sociais, enfim, torná-lo parte integrante da nossa vida diária. Uma mudança rápida, pois o iPhone surgiu apenas em 2007!
Mas, temos que ir além dos apps. Estamos às voltas com inúmeras inovações tecnológicas que não podem, em absoluto, serem ignoradas. Assim discutimos diversas tecnologias como Internet das Coisas, drones, RA/RV, impressoras 3D e deep learning cuja convergência está provocando significativos impactos na sociedade. O fato é que as tecnologias digitais estão transformando o mundo à nossa volta, as cidades que habitamos, a maneira como estudamos, as formas das nossas comunicações e as economias em que vivemos.
Os novos modelos assustam. E um indicativo de quão assustador eles são, é a agressividade de seus inimigos. Um exemplo é o Uber e o Buser, e as suas constantes brigas com os taxistas e as empresas de ônibus, a as tentativas políticas de travarem sua operação.
Entretanto, se transformar em uma ExO ou pelo menos adotar algumas de suas características é uma necessidade de sobrevivência para as empresas atuais. Não é, em absoluto uma tarefa simples, mas é essencial. Já vemos muitas empresas caminhando nesta direção, em ritmos diferentes, claro, mas de alguma forma, tentando se transformar. Sugiro dar uma olhada no “quociente exponencial” das empresas que contam da lista Fortune 100, ou sejam, as 100 maiores empresas do mundo. As que estão no final da lista deverão ter sérias dificuldades para se manterem relevantes ou mesmo sobreviverem no mercado.
Quebrar paradigmas significa repensar conceitos arraigados. Olhemos, por exemplo, o conceito de “Too big to fail” que envolve o sistema financeiro. Alguns bancos são tão grandes que sua falência, segundo a teoria, provocaria crises econômicas significativas. Existe um debate que provoca fissuras neste conceito, com o “too big to fail, too big to exist”, que já vemos acontecer nos EUA. Tem um artigo interessante “Top Financial Regulator Might Actually Break Up ‘Too Big To Fail’ Banks” que coloca o assunto em debate, tema que até pouco tempo atrás era inquestionável. Se estas ideias forem à frente, abre espaço para disrupções, dando maior impulso às Fintechs e BigTechs, ampliando rupturas no tradicional setor financeiro. Os agentes reguladores estão avançando no sentido de forçar a competição e o Banco Central no Brasil é um bom exemplo.
Muitos conceitos que criaram modelos de negócio de sucesso estão sendo colocados em cheque. Muitas empresas foram criadas sob o paradigma da escassez. Escassez significava valor. Hoje, vemos novas empresas transformando escassez em abundância e criando modelos de negócio diferentes. Um exemplo simplista são os aplicativos de mobilidade como Uber e 99. Antes conseguir um táxi dependia de você ter muita sorte, principalmente em dias de chuva. Era um produto escasso. Os apps tornaram abundante a escassez, pois permitiu a entrada de novos atores, motoristas que não eram taxistas. Como eles são alcançados? Por informação. Esta passa a ser a nova moeda de valor.
Aliás, este tema é debatido no livro “The Zero Marginal Cost Society: The Internet of Things, the Collaborative Commons, and the Eclipse of Capitalism”. É um debate sobre novos modelos econômicos, que tem impacto direto na maneira como as empresas farão negócios.
Que todo este debate nos mostra? Que a transformação digital vai atingir de forma disruptiva todos os setores, em maior ou menor grau. E é apenas o ponto de partida, a base, que vai nos permitir construir novos e inovadores negócios. Isso vai acontecer muito mais rápido que pensamos. Pense que seu negócio estabelecido há dezenas de anos não garantirá sua sobrevivência nos próximos dez a quinze anos. Os executivos das empresas, sejam CEOs, CMOs, CFOs e sim, os CIOs devem olhar com atenção estes movimentos de mudança estruturais e desenhar suas estratégias de reinvenção de seus negócios. Uma organização digital deve responder com rapidez às mudanças. Uma estrutura hierarquizada e rígida não sobrevive ao dinamismo da digitalização. As mudanças demandam velocidades que os atuais modelos organizacionais não conseguem atender.
Esta reinvenção passa pela mudança na maneira de pensar. Não mais linear, mas de forma exponencial. Em tempos de exponencialidade, ficar parado é matar a empresa. A disrupção vai fazer parte do dia a dia e pensar de forma diferente (como seria a empresa se eu começasse do zero hoje?), passará a ser o cerne das discussões estratégicas.
Como o crescimento é exponencial, a adição de mais alguns bilhões de pessoas conectadas à Internet nos próximos anos, aumentará exponencialmente o número de ideias e propostas de negócios inovadores. Tudo isso chegando cada vez mais rápido. Para muitos ainda pode ser como um tsunami ainda em alto mar, não perceptível. Mas quando ele chegar à terra causará uma imensa devastação. Se você não estiver preparado para este tsunami, já sabe o resultado!